sexta-feira, 6 de outubro de 2017


segunda-feira, 2 de outubro de 2017



Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória. Não é isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o espírito é uma coisa e o corpo é outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, não é de admirar. Aqui, porém, o espírito é a memória. Efectivamente, quando confiamos a alguém qualquer negócio, para que se lhe grave na memória, dizemos-lhe: «vê lá, grava-o bem no teu espírito». E quando nos esquecemos, exclamamos: «não o conservei no espírito», ou então: «escapou-se-me do espírito»; portanto, chamamos espírito à própria memória. Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo? (...) E mesmo quando falo no esquecimento e conheço o que pronuncio , como podia reconhece-lo , se dele não me lembrasse ?  Não falo do som desta palavra , mas do objecto que exprime . Se o esquecesse , não me poderia lembrar do que esse som significava . Ora, quando me lembro da memória , esta fica presente a si , por si mesma . Quando me lembro do esquecimento , estão ao mesmo tempo presentes o esquecimento e a memória : a memória que faz com que me recorde , e o esquecimento que lembro. (...) A memória retém o esquecimento . " ( Santo Agostinho , Confissões )  





segunda-feira, 18 de setembro de 2017


sábado, 16 de setembro de 2017





sexta-feira, 15 de setembro de 2017


quinta-feira, 13 de julho de 2017


domingo, 25 de junho de 2017



terça-feira, 25 de abril de 2017


domingo, 23 de abril de 2017


sábado, 15 de abril de 2017


sábado, 1 de abril de 2017




segunda-feira, 27 de março de 2017



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017



domingo, 19 de fevereiro de 2017


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017




sábado, 24 de dezembro de 2016


Ouvi contar que outrora , quando a Pérsia tinha não sei qual guerra / quando a invasão ardia na cidade e as mulheres gritavam , /  dois jogadores de xadrez jogavam o seu jogo contínuo  / à sombra de ampla árvore fitavam o tabuleiro antigo / E , ao lado de cada um , esperando os seus momentos mais folgados / quando havia movido a pedra e agora esperava o adversário / um púcaro com vinho refrescava sobriamente a sua sede / ardiam casas , saqueadas eram / as arcas e as paredes , violadas as mulheres eram postas contra os muros caídos / trespassadas de lanças,  as crianças eram sangue nas ruas ... / Mas onde estavam , perto da cidade / E longe do seu ruído , os jogadores de xadrez jogavam o jogo de xadrez  / Inda que nas mensagens do ermo vento / lhes viessem os gritos , E, ao reflectir soubessem desde a alma , que por certo as mulheres e as tenras filhas violadas / eram Nessa distância próxima , Inda que no momento em que o pensavam / uma sombra ligeira lhes passasse pela fronte alheada e vaga / breve , seus olhos calmos / volviam sua atenta confiança ao tabuleiro velho /  quando o rei de marfim está em perigo / que importa a carne e o osso das irmãs e das mães e das crianças ? / quando a torre não cobre a retirada da rainha branca / o saque pouco importa / e quando a mão confiada leva o cheque / ao rei do adversário , pouco pesa na alma que lá longe , estejam morrendo  filhos ,  mesmo que de repente sobre o muro / surja a sanhuda face / dum guerreiro invasor e , breve em sangue ali cair , o jogador solene de xadrez , o momento  antes desse ( é ainda dada ao cálculo dum lance para efeito horas depois ) É ainda entregue ao jogo predilecto / dos grandes indif'rentes , caiam cidades , sofram povos , cesse a liberdade e a vida / os haveres tranquilos e hábitos , ardem e que se arranquem / mas quando a guerra os jogos interrompa , esteja o rei sem cheque / e o de marfim peão mais avançado / pronto a comprar a torre / meus irmãos em amarmos Epicuro , e o entendermos mais , de acordo com nós-próprios do que com ele / aprendamos na história dos calmos jogadores de xadrez , como passar a vida . / Tudo o que é sério pouco nos importe , o grave pouco pese / o natural impulso dos instintos , que ceda ao inútil gozo ( sob a sombra tranquila do arvoredo ) de jogar um bom jogo / o que levamos desta vida inútil , tanto vale se é a glória , o amor, a ciência, a vida , como se fosse apenas a memória de um jogo bem jogado / e uma partida ganha a um jogador melhor / a glória pesa como um fardo rico / a fama como a febre , o amor cansa porque é a sério e busca / a ciência nunca encontra / e a vida passa e dói porque o conhece / o jogo do xadrez prende a alma toda mas, perdido  pouco , pesa / pois não é nada / ah, sob as sombras , que sem querer nos amam , com um púcaro de vinho , ao lado e atentos só à inútil faina / do jogo do xadrez , mesmo que o jogo seja apenas sonho / e não haja parceiro , imitemos os persas desta história / e enquanto lá fora , perto ou longe / a guerra e a pátria e a vida , chama por nós deixemos / que em vão nos chamem , cada um de nós / sob as sombras amigas / sonhando eles , os parceiros e o xadrez , a sua indiferença . ( Fernando Pessoa , 01-06-1916 )       

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


quarta-feira, 30 de novembro de 2016









domingo, 13 de novembro de 2016


quarta-feira, 19 de outubro de 2016


sexta-feira, 14 de outubro de 2016